sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Clausura

Não sou desses que consegue se despir com as palavras.

Ao contrário, faço-as cachecol, capacete, armadura, torre de cimento vermelho. Minha cabeça está eternamente envolta a murmurinhos mil: de memórias, neuroses, criações – mas quando sobra um espaço em que o silêncio inaugura seu caos intenso... Como agradeço!

De manhã tudo era amargo. O vizinho não me acorda mais com seu piano mágico, seu quarto está sendo reformado. O almoço salgado, com pouca castanha e muito caldo. O tempo corrido sem vírgula para uma pausa de entendimento. Isso tudo, a cada dia, me faz querer fugir da Bahia – mas sei que o problema não é ela; inclusive porque:

Fui ao Buracão, e percebi por um instante como

O mar é bonito, como as pessoas podem ser lindas, e como as palavras poderiam não existir!

Me contentaria com a nudez dos sorrisos, gestos, gemidos e afagos.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Nefelibata Errante: Fase - Andarilho Urbano.

Estranho começar algo nomeado de urbano com ditos sobre os ultimos 20 dias transmutantes ocorridos - posto que como compania tinha montanhas e montes, pássaros, árvores, fadas cintilantes (as do cerrado são tímidas porém graciosas!) e cachoeiras mais geladas que qualquer riacho do Capão. Essas eram tantas que, numa manhã, quase me perco com um grupo de japoneses acompanhados do nissei tradutor e suas perguntas qual "você ainda acredita em comunismo?". Foi difícil levar a atenção deste para o cheiro das flores e vôo da borboleta-um-palmo (seu azul e preto bailando no espaço!). Engraçado ver que tudo parece fantasia quando você volta para prédios & caos na cidade - e como é absurdo acontecimentos tal o encontro com um russo, que havia morado na argentina e agora rumava para a Bahia (vejam só!). Os olhos dele pareciam mandalas em movimento, e fiquei receoso de parecer gay na minha contemplação vidrada, como o artesanato custoso desse material que ele fazia. Não comprei nada a não ser a flauta do seu 'hermano'; e se não fosse os abacates do mato, limões galego e os cereais eternamente na mochila - jurei que passaria fome. Nada que "começar a dieta de luz" não despreocupasse.

Pois é, de nome Shankara e com mesma idade que eu mas com muita segurança de si e corpo bem tratado, falava sobre alimentação pranahsíca numa roda com gente de várias estirpes (sua fala cômica ainda acompanhava o peso de termos místicos, além do vicio de linguagem tão repetido: "tá... Vamo lá"). Ele mesmo só bebia suco e não por necessidade, desejo. Após, ele me perguntou se eu me masturbava. Surpreso e desconcertado disse que não, e tinha bastante tempo que não poderia trazer o quando mas falei "provavelmente no inicio dos 18 anos". Rindo murmurou "pois devia; é por isso que tem essa atmosfera tão pesada - hormonio e energia acumulados, cuidado pra não atrair um câncer de próstata". Indaguei dizendo que não sentia vontade, mas ele insistiu - "force". Não segui seu conselho. Hoje até que fui ler hentais mas nada instigou, enfim...


Devo parar por aqui pois alguém bate na porta, uma aura familiar, já penso quem seja. Devo abrir pois sua voz já me entrega a certeza que era achado... Nossa, quanto tempo!

sábado, 27 de junho de 2009

Cosme de Farias


Simplicidade dum senhor cálido
na mesa do armarinho
O silêncio contemplativo sábio
e chinelo de dedo canarinho
_Acena à calçada ao lado

_(é o vizinho
_Amigo e também velho impávido
_companheiro de samba & chorinho)
'
Passam carros, senhoritas, passarinhos
Da cidade: movimento e murmurinho
Enquanto o peito ancião – lento compasso
canta-balança carregado do passado.




segunda-feira, 22 de junho de 2009

A. A.

_


A arte se sente, nos poros, quando se está integro nela. Espelho da vida, o modo como estamos conectados a esta pode salientar como nos comportamos com aspectos outros. Meio de fuga? Sede de liberdade? Ou mais um meio de conceitualização e rotulismo? Na contemporaneidade nos batemos com a dificuldade de apontar e concluir sobre vários âmbitos – talvez isso seja um avanço à precisa transformação que ultrapassa as simples elucubrações da mentalidade condicionada.
A valia desta é singular a cada um, a partir de como se relaciona com ela. A mania de fazer tudo “café moído para passar no mesmo funil” é errônea, pois a funcionalidade ou adequação das artes e meios de comunicação são dirigidas por e para lugares diferentes. Mas espera: arte e meios de comunicação? No livro “Afinal o que é Arte” o autor diz: Embora a arte possa, sem dúvida, comunicar conteúdos específicos, essencialmente ela não é um sistema de comunicação (...), a relação inteligente entre os seus detalhes formais, significa nada além da própria arte. Ou seja: apesar de toda confabulação sobre aspectos do que obras querem mostrar, elas são o que são, comunicando algo ou não, quer nos unamos a ela ou não.Essa separação de “mim e o mundo; mim e aquilo; mim e o que observo” cai quando vemos que somos construções históricas da humanidade do mesmo modo como obras não vivas biologicamente, mas também vindas de todo “cercar” humano.
A interatividade entre sujeito e objeto sempre existe, mas em algumas ações é inserido que a contemplação não é o único meio de essa relação existir. A exemplo, no teatro, da peça “Alegria de Viver”, em que os atores questionam o publico, quebrando a distância entre esses dois (já feito por Zé Celso, com toda polêmica de suas tentativas de romper paradigmas), ou, em artes plásticas, nos Parangolés de Lygia Clark.
Mas, como para ler precisamos dum aprendizado, para entender arte também não será necessário um tipo de treinamento de sensibilidade? O livro já apontado diz “É a educação artística orientada de forma inteligente que vai nos permitir apreciar a arte com maior intensidade.” Fica claro então, que o menino que mora na favela ao lado do museu de arte moderna da Bahia, mesmo com sua aproximação física dum espaço assim, não tem como entender melhor os signos do que ali está exposto que o inglês burguês com toda uma bagagem educacional preparatória para. Mas, entender realmente é o maior interesse? E o apreciar necessita duma construção formal sobre arte? No Teatro Castro Alves, em Salvador da Bahia, um interessante projeto dá aos semelhantes do “menino de Gamboa” a possibilidade de ver uma orquestra, dança contemporânea, e nisto os mundos se chocam para fazerem nova relação não menos importante que o outro já acostumado em arcar com tais expressões.
Como o sapateiro que vai pela primeira vez em um teatro assistir um monólogo de Fernanda Montenegro, e ao ser questionado por ela como imaginava ser um espetáculo responde que adorou e que “não imaginava como era”. Com certeza, para teorizar sobre, o aqui chamado “Seu Zé” vai ter menos facilidade que o estudioso no caso Ariano Suassuna, mas nem por isso menos valioso é seu contato, menos real sua relação e sua transformação com a arte vista (e vivida).
E a sapiência da obra está em ser atual ou em permanecer atual? O óbvio faz incluir ambos. Sabedoria é algo intangível pela confluência neural, sua raiz latina remete ao ver e fazer, a inseparabilidade do que ocorre dentro com o que se faz fora. “A arte é amor na sabedoria” brindou Paulo Emilio, mas acontece que no planeta


Enquanto os tolos fenecem em torpe por esmo
E os proletistas falecem com todos seus erros
Nos novos, vejo,
Não há um sonho mais.


A ilusão do vindouro futuro desejo
Do belo utópico formado por dom e por medo
É assim mesmo:
A mente um dia cai –


Posto que sabemos que o racional é incapaz
De salutar por todo cosmos e descobrir o cais
Dessa nascente, do mistério, do infindo e do Ufano


Conseguiremos ir mais longe, dentro da fugaz
Essência fluida e ígnea que o corpo traz
Bem rente ao córrego oculto supratômico, no âmago?


A arte arde nos umbrais dos planos sutis
Provoca homens fazerem-na orgânica vir
(Independente)
Tola ou genial


Então tais seres estranhos, confusos, pueris
Não passam de canais a tudo que urgir
Desde a vertente
Choca à especial


Pensar que o pensamento é fraco e jamais
Deglutirá as possibilidades universais
Mas só um pouco, um tantinho: a merreca desse plano


Tão denso, externo e enganoso até pro mais sagaz
(É só uma parte do grão todo que, não, nunca vai
Ser descoberto em seu auspicioso poder pleno)


Os pigmentos de cores desvendam o véu
Do ignoto que percorre avante no céu
Sempre passível
De se acionar


E Digo logo que a palavra é como cascavel
Que cada coisa é coisa e é inenarrável
Indescritível
De significar


E os devaneios dos verbos gramaticais
Dos símbolos palavreados, aforismos mentais
São tão pequenos perto do que estão representando


E a memória, força do ego cão, o favor faz
De imundar tudo com suas imagens irreais
E assim, cegos e separados, nós ainda vamos!


Enquanto Kant fala de gosto e querer
Claudio Richeme descreve a arte do ser
E organiza
O bom do não legal


Induzindo o leitor a julgar responder
Que o que é belo se vale por o entreter
Com inteligência
Supra Cerebral


Peguemos então a ação de Iji Apógan
Também chamado Otun (depois Obá) Onã
Que ainda Hector gamou pelo cenário baiano


Carybé , o argentino filho de Iansã
O pintor branco mais negro dessa terra cã
Que coloriu o imaginário no sagrado & no profano


E que dizia que o artista deve dormir bem
E alimentar o organismo não como convém
Oh, pela glória –
D'além se expressar!

Pois a idéia de inspiração divina que vem
Do nada, criada fora desse Sir alguém
É ilusória
“Tem que se trabalhar!”


Porém, se perder em teorias banais
Enquanto a estética mostra que arte se faz
E que é pouco o que se ganha apenas proseando


Mudemos a lógica dos intelectuais
De se firmarem espertos por descrever demais
Enquanto a natureza demonstra que isso é engano


Pois não procura exprimir nenhuma explicação
(Até hoje nem chegamos perto da organização
E do portento
Que sua obra traz)


Tem sua importância bailar sobre o quinhão
Do que se pensa acerca da criação?
Observemos:
A pratica é que apraz!


E para finalmente vir finalizar
Essa minha estúpida e ingênua retórica
Irei falar dos autores que me mudam; por quem gamo


Brecht, Dali, Caetano, Fellini e Godard
Fernando Pessoa, Lispector, Kurosawa
Mestres em mostrar, nos seus devaneios, o que somos.


(...)

Silencio,me calo; basta de conjeturar
Se isso não me toca no fundo em nada
Então paro – e me defendo com o que outros falam:
“Há um problema real na tentativa de valorizar o nada, a sua inexistência”.


Me “mostre os refletores!” para eu “sair com apetite”, invés dessa porcaria que depois de 20 anos na escola não é difícil aprender ( e que não almejo a mim nem parà humanidade enferma qual faço parte)! Chega de manter o doentio vigorado. Bis de eadem re ne sit actio!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

0

Penarei que sei, mas não vou
Parar a lastimar, pois
O livre olhar apresenta
Unidade em todo canto
(Matéria estelar se alimenta
de energia do Kosmo
e a cinética Cósmica condensa
mais matéria estelar)
~
*
Percebo então:
O corpo é só uma parte do todo
Que estou vivo quando o elo está exposto (quando o ego está morto).

A liberdade é consciencial!
A revolução é imaterial.
A revolução é consciencial!
A liberdade é imaterial.

_________ As mascaras caem
_________E o rosto se esconde sob o chão
___________________ A terra se esvai
___________________ E o chão já não comporta a solidão.

Pois então arque com isso
Não existe mais Noé
Não há mais um escolhido
Veja só como é que é:
Introspecto ou unidos
Pouco importa – há de ter
para cada qual um caminho
E quem descobre é você.

_________________________ ________________________________ )

sexta-feira, 12 de junho de 2009

I

O tilintar no fluir dos sonhos
Dá uma fome que, desperto
Não se tem como sorver
Mesmo com o mais belo verbo

O tilintar no fluir dos sonhos
Que nenhum nome pode abarcar
Faz o tolo, em vão, sofrer
Querendo possuir o tilintar

Mas é quando se quer
possuir
que há conflito, e o que lindo antes
vira dor.

Bailemos como as nuvens, deixemos ser e não ser!
Cair em dualidade apenas mata
sssssssssssssssssssssssem se viver.

\

II

Dulce sentimento de pertencimento
a nadíca no todo!

Cada qual querendo um osso
E eu nem sei se é de osso mesmo que a alma sedenta
há de se saciar

porque então hei de Indagar, Pedir lastro aos céus,
desejar o porvir, ânsia dum algo mais?
(comer polvilho esfumaçado e duvidoso ao invés do real pão, cá, na mão?)
tolice tamanha sem cabimento
prefiro dizer-me vazio
_-_- Como esse poema.

\

III

Homens acham que são café moído para passar todos no mesmo funil
Não, que é isso?-s
im

Tudo (no universo) é uno, mas
a igualdade é uma ilusão matemática.

terça-feira, 9 de junho de 2009

A cadência da vida na dança



A cadência da vida na dança

Dançarino ser interno
(mestre, Deus sabido em baile)
Dou-lhe corpo além do credo:
só quem dança é Divindade!

Fátuo suingue sinuo-ébrio
fluir faz melhor aos ares;
inte&exterior bem perto
Nos passos da liberdade!

A folia cerzida
Pluridimensionalisa e
É grego, é celta, mouro, negro e índio,
É pau, é terra - movimento moinho
Da energia hermética:
Do pulsar vivo exímio!

domingo, 31 de maio de 2009

Ab initio (Vem o amanhecer)


Mana a luz da bem aventurança
Sob o fulgor revérbero dos astros,
Nos galhos luzidos d'anuência
Que o Sol [in amor] narra aos fastos.

Agradecido & agraciado
Sou: em poder cadenciar tal dança.
E esse ‘existir’ abençoado
Que o dissabor mental não balança –

Me faz saudar o lindo passarinho,
Dar risada com o belo pinheiro,
Brincalhar com as etéreas fadas;

E sei que, há de, o mundo inteiro
Saborear profícuo tantinho
Desse estado de tamanha graça!